domingo

brevípede

ser inteiro
pra que as flores cresçam
onde a força da chuva
desejar
pra que a histérica ironia
do calendário grosseiro
desmanche sua força
na orla ensolarada
dos momentos

ser inteiro
no digerir meteórico
desse azeite tóxico
dessa tigela de pus

ver a criança que brinca
esfola os joelhos
quebra vidraças
que tem a língua solta
e puxa o rabo
dos estranhos predicados

ver a cidade correr
gemer no asfalto
numa ambulância só...
no antigo gozo uterino
dessas crônicas
renascer, querendo mamar

se há luz
observar atento
o caminhar das cores
se há sombra
descrever o escuro
a malha da blusa
a caixa de fósforos

que toda forma desnuda
é surda e é muda
e dorme indiferente
exausta e serena

que o breve morde, mas beija
que a fruta brota bruta
é febre que inflama e luta
cozinhando no sol
das estações quentes
e frias

quinta-feira

pela rua

ah, antes fosse fulana
uma guimba
uma pena de pardal
buzina de carro
granito de asfalto
uma nota fiscal
da padaria
(mas agora, fulana é!)

(Ah, se fulana
dormitasse nos meus ombros
e, distraída, caísse
enquanto corro no vento
com todo seu peso
de estrela morta.
Que sua polpa azedasse
e tombasse na relva,
rolasse à poeira
como chapéu surrado.
Não! Que aos pouquinhos
fosse amarelando
e serenamente pousasse
como folha de outono.)

o mendigo me pede moedinha
(seria mal de amor?)

no bar me interpelam:
(sempre a mesma empunhada)
- Hoje veio de táxi?
- A pé, Gigante.
- Você sócaminha.

cúmplices do absurdo,
(no fundo, nada absurdo)
sorrimos.

sexta-feira

sentido

vida tão mágica
não vejo direito
(a causa e o efeito
é o nosso defeito
de fábrica)

segunda-feira

dia a dia

resta um exílio hediondo
que eu transpiro e que tantos
transpiram também

resta uma triste pintura
dessa obscena dentadura
que não poupa ninguém

e nosso sorriso
desbota num canto
de notas sem vida

(afora isso, em meu quarto
restam brincos e odores
de um bem-querer que partiu)

que mandem notícias
daqueles passantes
que não sucumbiram

(e se muito não for
que mandem notícias
daquela menina)

quinta-feira

visitansias

como é incendiária
a fumaça que sai
da usina de papéis...
o sol verte implacável
e não há um grão de sombra
e o vento até ruge
mas foge entre rumos vicinais
no fluxo indolente das ruas
nadar, nadar
afogando silenciosamente
o incesto cínico das frases
e a violência de amar

procurem a estrela da manhã

Carina, tristeza em flor
esculpida no vento da primavera
ignora gritos de amor
mas tem os ouvidos de fera

Carina, relicário de dores
na fuligem dos bares
gatuna de amores
tristeza e pesares

Carina, de unhas arteiras
pétalas rubras
em bocas alheias

E Carina esmola perdida...
recolhe em seu pote
quixotes de alma ferida

quarta-feira

onde está a estrela da manhã?

Carina pouco fala
por quem fala mente
assim Carina escala
seu sonho indecente

Carina é filha da fome
dorme no chão de angústias
numa cidade sem nome:
vagão de preços e astúcias

Carina, cabelos ensebados
sapatos bordados
nas ruas da cidade

Carina não tem calendário
e de tanto que sente
vai esgotando ao contrário

quinta-feira

eu quero a estrela da manhã

Carina, de pé quebrado dança
sobre as cabeças em fila
rasga conselhos de Sancho Panza
e pronúncias de Pancho Villa

varre o sangue das calçadas
quando o sol vem acordar
mas é santa desastrada
dessas que não podem amar

Carina é doce como só
olhos de brilho discreto
profundos de darem nó

Carina é fresca e matutina
mas sabe chorar e caminha
entre a vida severina

domingo

Vento Norte

Era o vento me soprando folhas
folheando minhas sombras
trazendo o cheiro das matas
e o apito distante
da locomotiva
chuta a poeira
em meus olhos
e os contratos caem dos bolsos
bergamotas racham ao chão
e os cigarros queimam com fúria
e telhados uivam em coro
e pinheiros dobram em fila
e cabelos dançam em transe
pássaros homens e cães
as calçadas chiam baixinho
sinto o sopro varrendo meus pêlos
arrancando minhas raízes
despertando uma ânsia de partir
e ser o próprio vento

sexta-feira

Léxicos na avenida central

feriados de festim
carnaval de farmácias
teatro do sono
beijo supersônico
jornais higiênicos
escadas rolantes
refrões injetáveis
artistas do medo
pintores nas ruas
andaimes no céu:
mentiras canônicas.

Punk Pimba Pumba

eu canso, ataco
ensaio meu canto

eu xingo, eu minto
enxoto meus santos

abuso, abafo
afobo meu uso

eu leio, assisto
assusto meus olhos

remendos, reparos
adornam meus medos

sábado

gols e goles

viver, trocar de vícios
acomodar as comportas
engaiolar e soltar cantos
perder e achar os verbos

pensar grave e subir
sumir da gravidade
e de lá escorregar
em franca vertigem

sofrer no dia
do futebol
protestar em desvios
arbitrários

comer o pão
que a cidade amassou
(e ai de quem não usa
sentir dessa fome)

enquanto isso a rua
o jornal, a medicina
e o meu coração
palpitam

domingo

operário amargo

muitas palavras
carcomidas, penduradas
em línguas aceboladas

ainda há, contudo
um arroz e feijão
nessa amarga panela

mas morcegos
roubam
tuas sementes

e teus sonhos
chupam todo
teu açúcar

a sopa de letrinhas
não cura
tua bebedeira

e a tua fibra
fibrila
sob o sol

quarta-feira

Marchinha

mamãe eu quero
um riso anônimo
e anômalo

mamãe eu quero
a bossa
da quarta-feira

mamãe eu quero
a lírica
acinturada

mas também quero
vagar
pelos sinais

sexta-feira

O verão das cigarras

debruçada no vento
a tarde sopra
o sono do céu

trafega a infância
entre as figueiras
e cigarras

o mundo é um domingo
e as pipas oscilam
manhosas

o verão das verdades
viúvas e velhas
como vento

quinta-feira

Olhando pro mar

mesmo que o sol
amoleça meus dias
e que o vento seque
e lamba meu sal
e que as águas engulam
os heróis de areia
estarei em segredo
fiel, ao teu lado
olhando pro mar

terça-feira

corre-corre

corre a mãe indignada
com o choro
da criança

corre o homem de gravata
cuidando saias
e semáforos

corre a carroça velha
(cavalo e carroceiro:
dois suspiros franzinos)

corre a ambulância
pra alcançar a vida
sem fôlego

e o louco esfomeado
almoça sem digerir
a proteína das horas

sobram plátanos e pombos
pelas praças
hipertensas

sobram mendigos e cães
nas sobras de ar
condicionado

Bebo por vocês

os poemas
são pomares
entre mapas
ou perfumes

range rimas
finca ritmos
nunca tendo
algoritmos

os poetas
bem podados
plantam palcos
tão poéticos!

brinco bobo
saboreio
babo e bebo
por vocês

quinta-feira

Quando ela bate na porta

quando ela bate na porta
eu saboreio um caso
de alegre-indigente
do tempo da gente

quando ela bate na porta
não há tempo pra ensaios
mas quero matar os meus ratos
e lavar minhas xícaras

quando ela bate na porta
enguiça minha mecânica
atiça uma angústia
acústica

quando ela bate na porta
eu não sei se é ela
eu não sei se é tarde
mas eu sempre amanheço

quarta-feira

Vem a manhã

vem a manhã com seus canários
e suas latas de tinta
despertar entre o concreto
um cheiro de café e hortelã

vem a manhã de fúria e pressa
sacudir nossos lençóis
aquecer os cães que ladram
(sempre atrás dos portões)

vem a manhã com seus conselhos
costurar malhas elétricas
e mover nossas artérias
por impulsos binários

vem a manhã com suas promessas
cobrar algumas dívidas
e empilhar nas calçadas
suas caixas de presente

vem a manhã com seus motores
e sua cantiga pneumática
abrir nosso comércio
de sonhos e obrigações

vem a manhã maquilada
(novo e maquinal aniversário)
e há mais velas derretendo aço
(ladras do cansaço de amanhã)

domingo

Chuvinha de fim de tarde

chuvinha de fim de tarde
realça qualquer encanto
sopra um beijo úmido
nos poros abertos da cidade

as gotas vagueiam tranquilas
condensam os trajes urbanos
descortinando as formas e cores
de todas as folhas, bustos e flores

enquanto o céu murmura
pés quentes e lascivos
brincam na lama macia
melando os dedos e unhas

(e por saltitar distraída
fica o respingo das poças
nas pernas brancas
da menina)

o vapor fresco das ervas
vai ungindo pulmões fatigados
engolindo os corpos febris
de fim de tarde...

quinta-feira

Acordeon

toca acordes acordeon
acorda as cordas do corpo
açoita as traças as travas e as trancas
dos vagos traçados de vida
descoberta desencarde desencrava as dores
azula acende alisa as desilusões
apresenta presume prelúdios da paixão
os queixumes os choros os corais das crenças
alegra grita, traga gracejos e gargalhadas
goza agridoce em larga graça
gorgoleja agrava vaga
chama-me em chamamés
melindroso nas densas líricas milongas
melancólico colérico calamitoso calmoso
afaga afugenta trafega em teus foles
a fala morna ou fria, forte ou faminta
as flamas ou mofos das almas

terça-feira

Dia e Noite

longo dia
lâmpada acesa
lente dinâmica
entre a fumaça
corremos, voláteis
luz ditosa
caretas lúcidas
promessas lúdicas
empregos lícitos
da língua
lucramos lágrimas
de lantejoula
somos lírios ao sol
lições coloridas
por braços laboriosos
longa noite
livre estática
em que trocamos
o peso vocabular
pelo peso dos corpos
...ou lírica elástica
e as frases então
são como degraus
ditirâmbicos passos
dos porões aos sótãos
lenta escrita
perdemos o tempo
e as gramáticas
laivo estético
o vinho inflama
cobre os abismos
remoçamos, transpiramos
cavalos flambados
além das estrelas
nos últimos goles
de sombra.

quinta-feira

Tempestades

na textura do teu sorriso
um hotel de histórias breves
canções de uma vida leve
pequenas febres
que o tempo arranja...
mas diz, menina
alguma vez
o vento fez
desarranjar
tua franja?
algum veneno
correu teus lábios
melou tua boca,
manchou teus mares
e a bruma doce
do teu beijo?
velejando
jamais deixaste exalar
no calor desses trópicos
perfumes filosóficos
espirros bazóficos?
não faças assim
não escondas de mim
o que te faz plena
e inacabada:
o teu simples navegar
tua sina, menina.

terça-feira

Ventos Urbanos

Os ventos urbanos
que vendem nossos escrúpulos
arrancam também
de nós os crepúsculos
e a vaidade sem vintém
estica nossos músculos
pois entende que no susto
a ninguém enganamos.
Concordamos, porém
o rico rei que vigora
fica fraco e minúsculo
na saudade d´aurora
que nunca vem.