quarta-feira

doente na noite invernal

caminhamos, no asfalto ilustrado
um peito constipado de cores
autores de fomes gratuitas

precisamos pintar e bordar
desse espasmo arrancar
espirrar nossa primavera 

noivar com o vento
a fumaça que atravessa
gripando os motores

caminhamos
e todas as ruas do mundo
habitam?

segunda-feira

algoritmo

a vida tem seu ritmo
não me peça um algo-
ritmo

quarta-feira

batida

pisar no chão
tomar um tapa
na palma da mão
britar a pedra
picar o silêncio
na sólida morte
no escuro maciço

tic-tac
pá-pum
toc-toc
tum-tum

vida percurtida
passeando dentro
de zil intervalos
sem eira nem beira
passo a passo
ponto a ponto

esse tamborilar
não é o infantil espanto
o grito mais puro
o vulcão sanguíneo
anúncio do verbo
mais intransitivo?

bandeira iluminada

bandeira quente e universal
que flama naquele peito
de tísico profissional
sem dever e sem direito
e sem minúsculos porquês
vai rasgando céus estreitos
partejados sem gravidez
sonoro, selvagem animal
transpirando o seu manual
de lírica em português
assim tremula manuel
num frêmito de menestrel

a dama da noite

sento na varanda
no fim do dia
albergo crianças famintas
que engolem a tarde 
fecundo uma pose inútil
aguardo a noite inútil
com meus inúteis vícios

urubu-rei me avisa
de cima do arranha-céu
- que a escuridão te espera!
- que ela vem te buscar!

eu não arrumei minhas malas
não enterrei meus tesouros
mas as roupas já pouco me servem
e guardo pedras de peso sem brilho
e mesmo assim, mesmo assim!
ela vem me roubar

o gato negro
circunda atento meu corpo
pede carícias
murmura que estamos vivos
que a madrugada é um abraço frio
mas pede pelo meu beijo

ela vem com a brisa
anjo de poucas palavras
cortesã das horas
consulesa do Hades
perfumada de Vênus
no úmido sereno

- que ela vai te matar!
sim, ela vai te matar!
num denso vapor de vinho
na sombra da sua alcova
ela vai te matar de amor
e vamos devorar cada um
dos teus segredos!

segunda-feira

café da manhã

enquanto como, bebo
penso que
tantos vícios-enguiços
que habitam
a vida habitual
(esse grande vício)
ah, o vício! a prova
da virtuosidade do hábito
e quando nada mais nos estranha
não a carne, mas o verbo
e o pão nosso de cada dia
perdem o viço
muita coisa habita ess'ampulheta.
a revolta espiando esse fluxo.

hinferências

empatizo quando in-vejo
transo-unto se me cruza
espanto com a res-posta
mais ainda no entre-tanto
com-tudo e com-posto
sendo ali um piro-técnico
num emprego in-formal
derretendo algumas formas

domingo

brevípede

ser inteiro
pra que as flores cresçam
onde a força da chuva
desejar
pra que a histérica ironia
do calendário grosseiro
desmanche sua força
na orla ensolarada
dos momentos

ser inteiro
no digerir meteórico
desse azeite tóxico
dessa tigela de pus

ver a criança que brinca
esfola os joelhos
quebra vidraças
que tem a língua solta
e puxa o rabo
dos estranhos predicados

ver a cidade correr
gemer no asfalto
numa ambulância só...
no antigo gozo uterino
dessas crônicas
renascer, querendo mamar

se há luz
observar atento
o caminhar das cores
se há sombra
descrever o escuro
a malha da blusa
a caixa de fósforos

que toda forma desnuda
é surda e é muda
e dorme indiferente
exausta e serena

que o breve morde, mas beija
que a fruta brota bruta
é febre que inflama e luta
cozinhando no sol
das estações quentes
e frias

quinta-feira

pela rua

ah, antes fosse fulana
uma guimba
uma pena de pardal
buzina de carro
granito de asfalto
uma nota fiscal
da padaria
(mas agora, fulana é!)

(Ah, se fulana
dormitasse nos meus ombros
e, distraída, caísse
enquanto corro no vento
com todo seu peso
de estrela morta.
Que sua polpa azedasse
e tombasse na relva,
rolasse à poeira
como chapéu surrado.
Não! Que aos pouquinhos
fosse amarelando
e serenamente pousasse
como folha de outono.)

o mendigo me pede moedinha
(seria mal de amor?)

no bar me interpelam:
(sempre a mesma empunhada)
- Hoje veio de táxi?
- A pé, Gigante.
- Você sócaminha.

cúmplices do absurdo,
(no fundo, nada absurdo)
sorrimos.

sexta-feira

sentido

vida tão mágica
não vejo direito
(a causa e o efeito
é o nosso defeito
de fábrica)

segunda-feira

dia a dia

resta um exílio hediondo
que eu transpiro e que tantos
transpiram também

resta uma triste pintura
dessa obscena dentadura
que não poupa ninguém

e nosso sorriso
desbota num canto
de notas sem vida

(afora isso, em meu quarto
restam brincos e odores
de um bem-querer que partiu)

que mandem notícias
daqueles passantes
que não sucumbiram

(e se muito não for
que mandem notícias
daquela menina)

quinta-feira

visitansias

como é incendiária
a fumaça que sai
da usina de papéis...
o sol verte implacável
e não há um grão de sombra
e o vento até ruge
mas foge entre rumos vicinais
no fluxo indolente das ruas
nadar, nadar
afogando silenciosamente
o incesto cínico das frases
e a violência de amar

procurem a estrela da manhã

Carina, tristeza em flor
esculpida no vento da primavera
ignora gritos de amor
mas tem os ouvidos de fera

Carina, relicário de dores
na fuligem dos bares
gatuna de amores
tristeza e pesares

Carina, de unhas arteiras
pétalas rubras
em bocas alheias

E Carina esmola perdida...
recolhe em seu pote
quixotes de alma ferida

quarta-feira

onde está a estrela da manhã?

Carina pouco fala
por quem fala mente
assim Carina escala
seu sonho indecente

Carina é filha da fome
dorme no chão de angústias
numa cidade sem nome:
vagão de preços e astúcias

Carina, cabelos ensebados
sapatos bordados
nas ruas da cidade

Carina não tem calendário
e de tanto que sente
vai esgotando ao contrário

Responsabilidades

por guardar as palavras
e seus temperos
(aquilo que não mora
no aço ou no vidro
nem nas fibras de papel)
por ser a custódia arrogante
dos teus medos
o factoide cínico
que suja teu samba
e adoça gemidos
por queimar no orvalho
de tuas manhãs
e não regar os teus sonhos
que germinam sem cor
por tua bélica espera
que se desmanchou
como chuva na janela

quinta-feira

eu quero a estrela da manhã

Carina, de pé quebrado dança
sobre as cabeças em fila
rasga conselhos de Sancho Panza
e pronúncias de Pancho Villa

varre o sangue das calçadas
quando o sol vem acordar
mas é santa desastrada
dessas que não podem amar

Carina é doce como só
olhos de brilho discreto
profundos de darem nó

Carina é fresca e matutina
mas sabe chorar e caminha
entre a vida severina