domingo

operário amargo

muitas palavras
carcomidas, penduradas
em línguas aceboladas

ainda há, contudo
um arroz e feijão
nessa amarga panela

mas morcegos
roubam
tuas sementes

e teus sonhos
chupam todo
teu açúcar

a sopa de letrinhas
não cura
tua bebedeira

e a tua fibra
fibrila
sob o sol

quarta-feira

Marchinha

mamãe eu quero
um riso anônimo
e anômalo

mamãe eu quero
a bossa
da quarta-feira

mamãe eu quero
a lírica
acinturada

mas também quero
vagar
pelos sinais

sexta-feira

O verão das cigarras

debruçada no vento
a tarde sopra
o sono do céu

trafega a infância
entre as figueiras
e cigarras

o mundo é um domingo
e as pipas oscilam
manhosas

o verão das verdades
viúvas e velhas
como vento

quinta-feira

Olhando pro mar

mesmo que o sol
amoleça meus dias
e que o vento seque
e lamba meu sal
e que as águas engulam
os heróis de areia
estarei em segredo
fiel, ao teu lado
olhando pro mar

terça-feira

corre-corre

corre a mãe indignada
com o choro
da criança

corre o homem de gravata
cuidando saias
e semáforos

corre a carroça velha
(cavalo e carroceiro:
dois suspiros franzinos)

corre a ambulância
pra alcançar a vida
sem fôlego

e o louco esfomeado
almoça sem digerir
a proteína das horas

sobram plátanos e pombos
pelas praças
hipertensas

sobram mendigos e cães
nas sobras de ar
condicionado

Bebo por vocês

os poemas
são pomares
entre mapas
ou perfumes

range rimas
finca ritmos
nunca tendo
algoritmos

os poetas
bem podados
plantam palcos
tão poéticos!

brinco bobo
saboreio
babo e bebo
por vocês

quinta-feira

Quando ela bate na porta

quando ela bate na porta
eu saboreio um caso
de alegre-indigente
do tempo da gente

quando ela bate na porta
não há tempo pra ensaios
mas quero matar os meus ratos
e lavar minhas xícaras

quando ela bate na porta
enguiça minha mecânica
atiça uma angústia
acústica

quando ela bate na porta
eu não sei se é ela
eu não sei se é tarde
mas eu sempre amanheço

quarta-feira

Vem a manhã

vem a manhã com seus canários
e suas latas de tinta
despertar entre o concreto
um cheiro de café e hortelã

vem a manhã de fúria e pressa
sacudir nossos lençóis
aquecer os cães que ladram
(sempre atrás dos portões)

vem a manhã com seus conselhos
costurar malhas elétricas
e mover nossas artérias
por impulsos binários

vem a manhã com suas promessas
cobrar algumas dívidas
e empilhar nas calçadas
suas caixas de presente

vem a manhã com seus motores
e sua cantiga pneumática
abrir nosso comércio
de sonhos e obrigações

vem a manhã maquilada
(novo e maquinal aniversário)
e há mais velas derretendo aço
(ladras do cansaço de amanhã)

domingo

Chuvinha de fim de tarde

chuvinha de fim de tarde
realça qualquer encanto
sopra um beijo úmido
nos poros abertos da cidade

as gotas vagueiam tranquilas
condensam os trajes urbanos
descortinando as formas e cores
de todas as folhas, bustos e flores

enquanto o céu murmura
pés quentes e lascivos
brincam na lama macia
melando os dedos e unhas

(e por saltitar distraída
fica o respingo das poças
nas pernas brancas
da menina)

o vapor fresco das ervas
vai ungindo pulmões fatigados
engolindo os corpos febris
de fim de tarde...

quinta-feira

Acordeon

toca acordes acordeon
acorda as cordas do corpo
açoita as traças as travas e as trancas
dos vagos traçados de vida
descoberta desencarde desencrava as dores
azula acende alisa as desilusões
apresenta presume prelúdios da paixão
os queixumes os choros os corais das crenças
alegra grita, traga gracejos e gargalhadas
goza agridoce em larga graça
gorgoleja agrava vaga
chama-me em chamamés
melindroso nas densas líricas milongas
melancólico colérico calamitoso calmoso
afaga afugenta trafega em teus foles
a fala morna ou fria, forte ou faminta
as flamas ou mofos das almas

terça-feira

Dia e Noite

longo dia
lâmpada acesa
lente dinâmica
entre a fumaça
corremos, voláteis
luz ditosa
caretas lúcidas
promessas lúdicas
empregos lícitos
da língua
lucramos lágrimas
de lantejoula
somos lírios ao sol
lições coloridas
por braços laboriosos
longa noite
livre estática
em que trocamos
o peso vocabular
pelo peso dos corpos
...ou lírica elástica
e as frases então
são como degraus
ditirâmbicos passos
dos porões aos sótãos
lenta escrita
perdemos o tempo
e as gramáticas
laivo estético
o vinho inflama
cobre os abismos
remoçamos, transpiramos
cavalos flambados
além das estrelas
nos últimos goles
de sombra.

quinta-feira

Tempestades

na textura do teu sorriso
um hotel de histórias breves
canções de uma vida leve
pequenas febres
que o tempo arranja...
mas diz, menina
alguma vez
o vento fez
desarranjar
tua franja?
algum veneno
correu teus lábios
melou tua boca,
manchou teus mares
e a bruma doce
do teu beijo?
velejando
jamais deixaste exalar
no calor desses trópicos
perfumes filosóficos
espirros bazóficos?
não faças assim
não escondas de mim
o que te faz plena
e inacabada:
o teu simples navegar
tua sina, menina.

terça-feira

Ventos Urbanos

Os ventos urbanos
que vendem nossos escrúpulos
arrancam também
de nós os crepúsculos
e a vaidade sem vintém
estica nossos músculos
pois entende que no susto
a ninguém enganamos.
Concordamos, porém
o rico rei que vigora
fica fraco e minúsculo
na saudade d´aurora
que nunca vem.

segunda-feira

Café da manhã

a beleza triste
da bossa
a poeira de açúcar
no canto da mesa
e o café lustrado
pelo sol aceso
nessa hora preso
nos ombros do bairro
acidentado
a fumaça desse cigarro
o cheiro frio
o mantra rotineiro
da geladeira
o que sobrou
pousando no lado
do pão esquecido
amarelo e oco
ressequido

ali
um poema amassado
esperando uma brisa
derrubar os farelos
tocar os cabelos
do chão para o ralo
sacudir as páginas
que gritam ofertas
e preços e prazos
acordar a gota
que sai da torneira
troçar da retina
cansada da noite

um poema de orvalho
que pediu um colo
um calor de silêncio
prum canto brotar
mas pouco posso
dou-te o meu seio
cubro-te e te beijo
no leito te deito
vejo-te sereno
arfar nos meus braços
correr nos meus pulsos
evito falar e te escuto
no inverso e no entanto
eu durmo

Tua casa

As letras são tuas chaves
o verso é o teu vinho
afável e fiel
lambendo fantasia
teus olhos, duas portas
duas janelas
donde morde os dias
com preguiça
na escuridão do teu ninho
a cidade, a cidade
vazia de lastros
são teus lastros
são tuas paredes
tragédias de figurino
e sacos plásticos
o mistério é o teu asfalto
o mistério é a tua lã
o teu telhado
donde contempla os astros
donos de nossas cabeças.

sexta-feira

Latina

olho lato
lato-te latina
lento loto
de paixão
langue lambo
licor jambo
dos teus lábios

segunda-feira

De manhã

O barro está seco,
é quase pó.
Formiga tão só.
O vento frio
soprou suas trilhas.

Abelhas bebiam
um pouco de sol.
Pensou o grilo:
- Onde esconderam
a primavera?

O cão lambe
suas patas geladas.
O gato espera
chegar de surpresa
na telha dos pardais.

As nuvens brincam
no fresco azul.
Os galhos balançam.
O tempo toca
seu acordeon.

quinta-feira

Quando estou fodido

quando estou fodido
as letras mastigam
o prumo da voz
há um livro aberto
sem início ou fim

quando estou fodido
há um riso no céu
de um pássaro louco
a zombar dos ares
a cagar em mim

quando estou fodido
o olho é taurino
a voz é medonha
as mãos são de ferro
o beijo é de gim

quando estou fodido
a chuva solfeja
afoga umas notas
são teclas de gelo
e dor de marfim

segunda-feira

Linha 196A

os pés ruminam um samba
no banco de madeira morna
um ônibus pra esperar
subimos, sentamos
todo mundo mórbido
nas mentes mil manias
mentiras urbanas
(somos uma trupe mambembe
com fome de meio-dia)
dançam os músculos
no vai e vem dos movimentos
do motorista
meditações imprecisas
medo: por vezes mergulhamos
em murmúrios do pensar
mínimos minutos mágicos
no manco despertar
do fim da linha

quarta-feira

Bocas

Teia de bocas
Equilibram distraídas
a carne doce
da maçã
a mordida suculenta
dos músculos
a renda frágil
dos risos
com a lenda
das línguas
a indústria severa
do silêncio.

miolo-mola

mais ou menos miolo
mais ou menos mola
mole com as idéias
milimétrico com as horas
melindroso como a noite
meticuloso como o dia
manhoso ao máximo
maroto ao múltiplo
moleque molhado
medíocre mimética
meio miolo,
mexendo mola
meio mola,
moendo miolo.

terça-feira

O cheiro da noite

engoliu as escadas
encontrou a rua
e sentiu a harmonia
do céu de cartolina

era uma madrugada
que a chuva lavou
e não havia carros
mandando em seus passos

foi expulso do colo
de um piano morno
de um doce incenso
lânguida fumaça

a noite era fresca
cheirava como castanha
e úmidas verdades
de grossas raízes

quarta-feira

Palavra

Palavra é cão sem dono
que roça e acua
entre as lembranças.
Por vezes linha
tinta avulsa
fio, início e fim
de meadas.
É resina bruta
cera pastosa
perfuma e gruda
pelo gogó.
Vapor de ecos
suor de suspiros
saliva das ruas
ou suco de vida
represada...
O que doura e derrete
refresca e afoga
reúne e amarra.
Criança mimada
que irrita e encanta,
é visita íntima
e entra sem pedir.
Palavra,
criatura morta-viva
que desconsidera
o apagar das luzes.
Num convite
ou num assédio
descuido inocente
ou sincera traquinagem
sempre toma
o meu sono.

segunda-feira

Lamento

Nas chuvas de agosto
eu perdi os sapatos
e promessas singelas
de bem querer.

teus cabelos longos
e negros
teus olhos tão grandes
e negros
teu corpo negro
num céu negro
de agosto

Nas chuvas de agosto
o céu lamentava
gota a gota
molhou as ruas
e os pés
e as lentes
e a cidade chiava
e a cidade dormia
lamento do céu
lamento de um samba
lamento de um peito
provinciano.

a limpo

Minhas roupas
com minha gordura
Minha pele
com meu sal
As páginas
com meus dedos
O tempo
e alguns discursos
(sou cada uma
dessas linhas)