quinta-feira

procurem a estrela da manhã

Carina, tristeza em flor
esculpida no vento da primavera
ignora gritos de amor
mas tem os ouvidos de fera

Carina, relicário de dores
na fuligem dos bares
gatuna de amores
tristeza e pesares

Carina, de unhas arteiras
pétalas rubras
em bocas alheias

E Carina esmola perdida...
recolhe em seu pote
quixotes de alma ferida

quarta-feira

onde está a estrela da manhã?

Carina pouco fala
por quem fala mente
assim Carina escala
seu sonho indecente

Carina é filha da fome
dorme no chão de angústias
numa cidade sem nome:
vagão de preços e astúcias

Carina, cabelos ensebados
sapatos bordados
nas ruas da cidade

Carina não tem calendário
e de tanto que sente
vai esgotando ao contrário

Responsabilidades

por guardar as palavras
e seus temperos
(aquilo que não mora
no aço ou no vidro
nem nas fibras de papel)
por ser a custódia arrogante
dos teus medos
o factoide cínico
que suja teu samba
e adoça gemidos
por queimar no orvalho
de tuas manhãs
e não regar os teus sonhos
que germinam sem cor
por tua bélica espera
que se desmanchou
como chuva na janela

quinta-feira

eu quero a estrela da manhã

Carina, de pé quebrado dança
sobre as cabeças em fila
rasga conselhos de Sancho Panza
e pronúncias de Pancho Villa

varre o sangue das calçadas
quando o sol vem acordar
mas é santa desastrada
dessas que não podem amar

Carina é doce como só
olhos de brilho discreto
profundos de darem nó

Carina é fresca e matutina
mas sabe chorar e caminha
entre a vida severina