quinta-feira

Quando estou fodido

quando estou fodido
as letras mastigam
o prumo da voz
há um livro aberto
sem início ou fim

quando estou fodido
há um riso no céu
de um pássaro louco
a zombar dos ares
a cagar em mim

quando estou fodido
o olho é taurino
a voz é medonha
as mãos são de ferro
o beijo é de gim

quando estou fodido
a chuva solfeja
afoga umas notas
são teclas de gelo
e dor de marfim

segunda-feira

Linha 196A

os pés ruminam um samba
no banco de madeira morna
um ônibus pra esperar
subimos, sentamos
todo mundo mórbido
nas mentes mil manias
mentiras urbanas
(somos uma trupe mambembe
com fome de meio-dia)
dançam os músculos
no vai e vem dos movimentos
do motorista
meditações imprecisas
medo: por vezes mergulhamos
em murmúrios do pensar
mínimos minutos mágicos
no manco despertar
do fim da linha

Hidrosfera

Uma sede insolente

esgota a língua

que sonda por mim.

Num charco de angústia

meus dedos passeiam

na terra solúvel.

Encontram raízes

inflando uma fruta;

quando debuta,

oscila no peso,

molhada de vento.

Colhida com ânsia,

espremida a polpa,

jorra e desprende

curiosa semente.

Se bebo apodreço,

enquanto não suo

a última gota.